Marly-Gomont e as intersecções entre xenofobia e racismo

"Bem-vindo a Marly-Gomont” é uma comédia dramática francesa de 2016 (presente no catálogo da Netflix) que conta a história de um médico congolês que se muda com mulher e filhos pequenos para um pequeno vilarejo, na década de 70. O filme é inspirado em uma história real, após o caçula da família tornar a cidade famosa em um rap.


Logo na primeira cena, o médico comemora com colegas de classe a formatura na universidade francesa quando um homem entra no bar. Os colegas dizem que o homem é um prefeito desesperado em convencer um médico a mudar-se para seu vilarejo. Vendo na oferta uma oportunidade de obter a cidadania, o médico decide ir conversar com ele. A conversa imediatamente se coloca como o médico tentando convencê-lo a contratá-lo, com sucessivas resistências do prefeito como: “esse diploma é de verdade mesmo?”, “não era bem você que a gente está precisando”, “mas não tem nenhuma outra pessoa como você (negro) na cidade”, entre outros.


Essa primeira cena me trouxe diversas lembranças desagradáveis da minha busca pelo primeiro emprego em consultorias francesas.

Em uma delas, após um longo processo seletivo, fui convidado para a entrevista final com o sócio. Colegas tinham me informado que era uma mera formalidade: o sócio cumprimenta o candidato, faz perguntas simples sobre seu percurso de vida e reexplica o pacote salarial, formalizando a proposta. Antes mesmo que pudesse dizer qualquer palavra, o sócio afirmou estar preocupado com o meu nível de francês. Surpreso e abalado com a afirmação, argumentei que “havia me formado na segunda faculdade de engenharia mais exigente da França, com todos os cursos em língua nativa” e busquei fornecer provas do meu domínio da língua. Quanto mais evidências dava, mais convencido ele parecia estar da minha inadequação. Em menos de 15 minutos, a reunião estava acabada. Na manhã seguinte, recebo um e-mail de rejeição para o cargo, sem qualquer explicação.


Em outra empresa, fui convidado para fazer presencialmente o teste de lógica, após passar no teste psicológico online. O teste era bem fácil, daqueles que a gente termina com tempo sobrando para repassar todas as questões mais uma vez. Na sequência, fiz uma entrevista sobre competências técnicas, que, aos meus olhos, tinha corrido muito bem. Alguns dias depois, recebo um e-mail dizendo que eu havia sido aprovado na entrevista e reprovado no teste de lógica, com nota abaixo de 50%. Tinha certeza que isso não era possível e pedi gentilmente para receber os resultados do teste. Apesar do pedido ser prática comum no país (e obrigação legal das empresas), nunca obtive resposta.


Fiz processo seletivo em quase todas as consultorias. O roteiro se repetia sempre da mesma forma: o diploma muito valorizado abria as portas para as entrevistas, porém em algum momento do processo encontrava um interlocutor visivelmente desconfortável com as minhas origens e era rejeitado por motivos duvidosos. Foram precisos anos para descobrir que se tratava de um dos segmentos mais elitistas e xenófobos do mercado parisiense.

É possível que você leia essas histórias pessoais com certo cinismo ou incredulidade. Talvez elas soem como mimimi ou arrogância.


A verdade é que essas histórias não são únicas. As experiências de discriminação xenofóbica no mercado de trabalho (para além das microagressões cotidianas) são estranhamente similares e bem reais, apesar da dúvida que seu aspecto velado semeia.


É preciso uma boa dose de consciência de suas competências e valor para separar discriminação de carências profissionais genuínas. Nas mil vezes que essas cenas passam em nossas cabeças, quando procuramos pelos mínimos erros que teríamos cometido, essa autoconsciência precisa beirar a arrogância. Caso contrário, nossa autoconfiança se desmorona.


Como muitos dos estudantes selecionados em seus países para uma formação no exterior, o médico do filme é um “overachiever”. Ele havia sido convidado para ser o médico do presidente (o sanguinário ditador Mobutu), mas, por motivos morais rejeita o convite e decide buscar uma vida melhor em outro país. No país que acolhe, ele descobre a necessidade de sempre ter que se provar. O pressuposto de base de todos que interagem com ele é o da sua incompetência, uma experiência bem familiar dos migrantes. 


O filme retrata de maneira sensível as dinâmicas da família, das dores da adaptação e da saudade de casa ao deleite da primeira guerra de neve. É uma homenagem à resiliência, inventividade, otimismo e humildade dos imigrantes, que precisam estarem dispostos a sorrir muito e serem muito gentis para serem aceitos em uma nova comunidade. Ser estrangeiro exige também uma capacidade empática enorme para entender a visão de mundo da comunidade que acolhe e entrar na mesma frequência de onda, muitas vezes sendo pressionado para esconder elementos mais “exóticos” da nossa cultura, para não “assustar” os mais conservadores. Essas são as regras do jogo da imigração, apresentadas de forma leve e despreocupada na história.


É neste ponto que as semelhanças entre meu percurso pessoal e o do protagonista acabam. A leveza com a qual o filme aborda o tema começa a incomodar quando se acrescenta uma outra camada à xenofobia: o intenso racismo ao qual a família do médico é submetida.

As crianças são excluídas e xingadas diariamente na escola. A esposa decide isolar-se em casa para evitar os olhares e fofocas dos habitantes do vilarejo. O médico tem seu consultório boicotado por meses, a ponto de precisar trabalhar em uma fazenda para ter alguma renda. Após uma consulta completa, seus primeiros clientes se recusam a pagar pelos serviços. Ao responder ao chamado de um fazendeiro, o médico é recebido com balas. Uma grávida em trabalho de parto o agride verbalmente, recusando que ele a toque. O médico ainda é preso e tem o seu consultório fechado, sendo utilizado como instrumento para manobras políticas. Todos os habitantes, com exceção de um, são profundamente ignorantes, racistas e refratários aos muitos esforços de aproximação do médico. Essas situações são apresentadas como inconsequentes, meras anedotas no processo habitual de integração cultural. Só que elas não o são.


Ao pressuposto de incompetência comum à experiência de muitos migrantes, o racismo adiciona uma camada de desumanização e crueldade, que não pode ser varrida para debaixo do tapete para se fazer um filme leve para toda a família consumir em torno de um balde de pipoca. Ao belo arco de desenvolvimento das personagens principais contrasta-se um pretenso arco de transformação dos habitantes da cidade, que passam a tratar com humanidade a família do médico a partir do momento que eles se revelam úteis. Em especial, essa mudança ocorre quando o médico salva a vida de uma mulher e a filha do casal se torna a artilheira do time de futebol da cidade (reforçando o estereótipo, que o próprio filme condena em outra cena, do negro valorizado por seus talentos no esporte).

Conforme o filme avançava, me peguei torcendo para que a história terminasse com um final mais próximo do destino que a estrangeira de Dogville reserva para a cidade do que a conclusão açucarada que teve.


Não me entenda mal, o objetivo desse texto não é fazer uma resenha de cinema. O objetivo é encorajar o questionamento dessas narrativas tão naturalizadas no entretenimento de que o racismo mais virulento pode ser desfeito com otimismo, gentileza e paciência, de que o ônus da mudança está sobre os ombros da vítima. Precisamos questionar porque aceitamos histórias onde o branco tem direito à justiça (como Dogville) e o negro deve ignorar humilhações para ter seu “final feliz”.


Se aceitarmos que uma pessoa negra precisa demonstrar-se “útil” para ser tratada como humana ou que humilhações raciais são parte natural do processo de integração em uma nova cultura, a serem interpretadas como mera “desconfiança do estrangeiro”, nós já perdemos a batalha contra o racismo.


Tampouco o meu objetivo é apontar o dedo sobre a França como único foco de xenofobia e racismo no mundo. O péssimo acolhimento de migrantes haitianos e venezuelanos tem sido tema de debates públicos e foi plataforma da campanha que elegeu um presidente racista e xenófobo. Denúncias de costureiras bolivianas realizando trabalho escravo para grandes grifes, e mais recentemente para fabricantes de máscaras para a pandemia, são recorrentes. 


A expulsão dos médicos cubanos que ofereciam cobertura de saúde em pequenas cidades do interior, nas quais os próprios médicos brasileiros se recusavam a ir, em nada diferem dos relatos de Marly-Gomont.


O estudo Caminhos para o Refúgio, do pesquisador Leandro de Carvalho (UnB), entrevistou mais de 380 profissionais de RH na grande São Paulo. 75% dos entrevistados mencionaram “força física” como característica marcante dos profissionais oriundos da África (52% para profissionais oriundos da América Central), enquanto a “capacidade de liderança” foi mencionada em 10% dos casos (7% para a América Central). Em contrapartida, migrantes da Europa tiveram a “força física” mencionada em 10% dos casos e a “capacidade de liderança” em 50% dos casos.


Além disso, 60% dos entrevistados mencionaram acreditar que os profissionais da África aceitariam salários menores no início (65% da América Central), enquanto acreditavam que os profissionais da Europa estariam dispostos a aceitar salários menores no início somente em 8% dos casos. Não é necessário se debruçar mais sobre esses números para compreender a exploração que sucede na interseção entre imigração e raça.


Se você não sabe onde fica Marly-Gomont, não se preocupe: você já está aqui!